Capacitação integra o programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública do Rio de Janeiro
Com uma aula magna de um dos pioneiros em estudos sobre prevenção do suicídio no Brasil, o professor Carlos Felipe Almeida D’Oliveira, o Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF) e o Ministério Público do Trabalho (MPT-RJ) deram início à segunda edição do Curso de Aperfeiçoamento Profissional em Suicidologia e Segurança Pública. A capacitação tem duração de um ano e é uma das ações do programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública do Rio de Janeiro desenvolvido pelo MPT-RJ com a parceria do HSF. Carlos Felipe é médico e integra a diretoria da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS) desde a sua fundação.
O diretor geral do HSF, Frei Carlos Burdini, falou sobre a alegria de iniciar uma nova turma do curso que trata de um tema tão sensível. “O HSF, além de ser uma instituição que trata da saúde, carrega um legado de 40 anos da atuação da Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus (ALSF), nossa gestora, a serviço da vida. Então, para a nossa Associação, esse curso tem um significado muito especial. Eu tenho a satisfação de dizer que nós vamos alcançar pessoas que nem imaginamos. São Francisco de Assis deixou uma frase muito bonita para nós: ‘Comece fazendo o necessário, depois o possível e logo você estará fazendo o impossível’. Aonde esse curso vai chegar? Quem ele vai tocar? Se tocar uma única vida, já terá cumprido o seu propósito. Mas esperamos que inúmeras vidas sejam tocadas por esse movimento que estamos iniciando aqui”, destacou.
O diretor executivo do HSF, Jociliano Leonel, comemorou a parceria com o MPT-RJ e o Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) para a realização do sucesso do curso. “Fiquei feliz de ver que mesmo após o encerramento das inscrições, tivemos outras pessoas interessadas na capacitação. Agradecemos as parcerias que tornaram esta iniciativa possível e também a todos que se inscreveram e que desejam caminhar juntos”. A diretora médica do hospital, Priscilla Alexandrino, frisou que foram muitas as lições aprendidas na primeira edição do curso, que deixou como legado o conhecimento. “Isso permite a integração entre os representantes da segurança pública e os profissionais do hospital e abre espaço para o diálogo. Que essas relações sejam muito proveitosas para todos”, afirmou.
As procuradoras Cynthia Maria Simões Lopes e Samira Torres Shaat, idealizadoras do programa no MPT-RJ, lembraram que o tema é caro e que o trabalho nasceu de um pedido recebido pelo MPT em 2019. “Quem sofre não espera. Nos debruçamos de forma dedicada e incansável sobre esse projeto para mudar a realidade de quem precisa”, disse Cynthia. Samira sublinhou o ineditismo da iniciativa: “temos cinco corporações, todas juntas e isso mostra quão importante é esse trabalho”.
A socióloga e pesquisadora Dayse Miranda, fundadora do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), coordenadora pedagógica do curso, ressaltou que ele é resultado de muitas parcerias e vai além do trabalho acadêmico. “Hoje estamos aqui com mais de 100 pessoas nesse auditório pensando em como podemos construir ferramentas, através do conhecimento adquirido, para oferecer às organizações para diminuir o sofrimento de quem sofre muito e sozinho”, pontuou.
A seriedade com que o tema foi tratado na primeira edição atraiu novos olhares para o curso. O cabo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro Guilherme Tavares Costa Guimarães é técnico de enfermagem e havia feito um curso de abordagem técnica à tentativa de suicídio no Corpo dos Bombeiros. “Desde então, eu trabalho no Grupamento Especial de Salvamento e Ação de Resgate, o Gesa, com uma equipe da área da saúde. O meu carro-chefe é falar sobre a doença mental e sobre o suicídio para os policiais militares. Um dos socorristas táticos do grupo é um agente penal que participou da primeira edição do curso no HSF e quando soube da nova turma, me recomendou fazer e eu logo chamei outra colega. O meu objetivo é adquirir esse conhecimento para poder ajudar mais pessoas”, contou Guilherme.
O professor Carlos Felipe destacou a importância do curso: “estudo o assunto há 30 anos e quando comecei, não tinha material sobre o tema produzido no Brasil. Hoje, o cenário é outro. Entre 2005 e 2006, coordenei o grupo de trabalho que formulou a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio e eu solicitei um levantamento de teses e foram localizadas entre 50 e 70. Hoje, esse número está em mais de 500. Avançamos bastante, superando os desafios”, lembrou o professor. Ele frisou ainda a importância de saber ouvir o outro: “nós que lidamos com o tema do suicídio precisamos escutar o que o outro está querendo”.
Dados do Boletim Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES) apontam que entre 2020 e 2024 foram notificadas 1.474 tentativas de suicídio por profissionais da segurança pública de todo o país. A capacitação responde a uma demanda crítica do setor e tem por finalidade capacitar profissionais de saúde da área da segurança para lidar com situações de estresse dos agentes e realizar intervenções diante do sofrimento psíquico das tropas. A primeira turma do curso contou com 80 alunos, entre profissionais de saúde que atuam nas forças de segurança (Polícia Civil, Polícia Militar, Secretaria de Estado de Polícia Penal – SEAP, Departamento Geral de Ações Socioeducativas – Degase, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal) e especialistas do HSF. Nesta segunda edição, foram abertas 60 vagas para os profissionais de saúde das forças de segurança e pessoas ligadas ao IPPES e à PUC-Rio, que apoia a iniciativa.
Os resultados da primeira turma da capacitação já começaram a aparecer. A psiquiatra Bárbara Estelita, coordenadora do serviço de saúde mental do HSF, explicou que o grupo de trabalho formado por profissionais do hospital desenvolveu, a partir do curso, um novo protocolo voltado aos fluxos de atendimento da linha de cuidados em saúde mental do hospital, que conta com ambulatório, internação, hospital-dia e um setor especializado no atendimento de pacientes com dependência química. “O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. O curso nos instrumentalizou para executar um trabalho de acompanhamento mais técnico e ágil”, afirmou.
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